Representantes do setor agropecuário e entidades ligadas à cadeia de proteína animal acenderam um sinal de alerta e intensificaram as conversas com a equipe econômica do governo federal. O setor adverte que a implementação imediata de novas exigências regulatórias, fiscais e de rastreabilidade ambiental pode provocar um aumento nos custos de produção, resultando no encarecimento da carne para o consumidor final em pleno período que antecede as eleições.

KEBEC NOGUEIRA/METRÓPOLES @kebecfotografo
O movimento do agronegócio busca pressionar o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e o Palácio do Planalto a flexibilizarem prazos ou oferecerem contrapartidas fiscais para evitar repasses de preços ao varejo.
Os pontos de atrito entre o Agro e as novas medidas
O alerta dos produtores baseia-se em um conjunto de novas normas que vêm sendo desenhadas pelo governo para atender tanto a exigências do mercado internacional quanto a metas internas de arrecadação e controle. Os principais gargalos apontados pelo setor são:
Sistemas de Rastreabilidade Individual: O cronograma para a implementação de chips e monitoramento individual do gado desde o nascimento, visando certificar o desmatamento zero, é considerado muito curto pelo setor, que aponta custos elevados de transição para pequenos e médios pecuaristas.
Mudanças na Tributação: Discussões sobre a regulamentação da Reforma Tributária e possíveis alterações nas alíquotas ou na concessão de créditos presumidos para insumos da cadeia de rações e medicamentos veterinários geram temores de perda de margem de lucro.
Custos Logísticos e Combustíveis: O encarecimento do frete e as novas exigências de conformidade sustentável no transporte de carga viva completam o quadro de pressão sobre os custos operacionais dos frigoríficos.
O cálculo político e o fantasma da inflação dos alimentos
A movimentação do agronegócio possui um forte componente estratégico. Ao vincular publicamente as novas regras ao potencial aumento do preço da carne um item de alto valor simbólico e de consumo popular, as entidades setoriais tocam em um ponto sensível para a popularidade da gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O impacto no humor do eleitor: Analistas políticos lembram que o preço dos alimentos, especialmente das proteínas básicas (bovina, frango e suína), é um dos principais balizadores da percepção pública sobre o rumo da economia. Uma alta expressiva nas gôndolas dos supermercados às vésperas do pleito eleitoral poderia inflar o discurso da oposição e prejudicar o desempenho de candidatos apoiados pela base governista.
A resposta e os argumentos do Governo Federal
Do lado do governo federal, interlocutores dos ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário buscam acalmar os ânimos e minimizar o tom de crise. A gestão defende que as novas regulamentações são fundamentais para garantir a perenidade das exportações brasileiras frente às exigências rigorosas da União Europeia e de outros grandes compradores globais.
O governo argumenta ainda que está aberto ao diálogo para desenhar linhas de crédito subsidiadas via Plano Safra para amortecer os custos de transição tecnológica. A ordem no Palácio do Planalto é negociar de forma técnica com as lideranças do agro, buscando evitar que o debate regulatório seja politizado e se transforme em um fator de desgaste inflacionário no mercado interno durante os próximos meses.