Meio século de Rádio Nacional FM em Brasília é um feito que merece aplausos, mas também uma boa dose de realismo. Em uma capital erguida sob o signo do concreto e da burocracia, manter uma emissora pública respirando por cinquenta anos sem se render completamente ao lobby do sertanejo universitário ou das seitas religiosas que lotam o dial é quase um milagre de sobrevivência.
Para celebrar a efeméride, o programa Espaço Arte escalou uma edição especial nesta sexta-feira, prometendo reunir gerações que ajudaram a pavimentar essa história. Sob a batuta de Marcelo Ferreira e Mário Sartorello, o estúdio vira um divã nostálgico a partir das 13h, tentando provar que Brasília produz mais do que apenas emendas parlamentares e crises institucionais.
No cardápio de convidados, figuram os veteranos Renato Vasconcellos e Renato Mattos, dividindo o espaço sagrado com a nova guarda do samba candango, representada por Fernanda Jacob e Ane Êoketu. É o clássico esforço de relações públicas de misturar a herança intelectual do passado com o frescor da juventude para ver se a audiência rejuvenesce junto com a marca.

O esforço de sobrevivência não para por aí: o Tarde Nacional estende o expediente com três horas de mensagens de parabéns gravadas por artistas. É o tradicional ciclo de tapinhas nas costas do meio cultural, onde quem precisa de espaço agradece a quem tem o espaço para dar, em um looping de afagos mútuos que massageia o ego da comunicação estatal.
Criado em 2004 no AM e transplantado para o FM em 2016, o Espaço Arte se vende como a grande vitrine cultural do Distrito Federal. Uma vitrine que, sejamos francos, muitas vezes brilha para poucos, disputando a atenção de ouvintes soterrados por algoritmos de plataformas de streaming que entregam facilidades com as quais o rádio analógico jamais conseguirá competir.
Enquanto a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) se gaba de protagonizar a transição para a TV 3.0 e estrear documentários sobre identidade de gênero, a realidade das ondas de rádio continua sendo um exercício de resistência analógica. É o moderno flertando com o arcaico em uma dança institucional constante.
A capilaridade da marca impressiona no papel: são oito emissoras próprias espalhadas pelo país, do Rio de Janeiro ao Alto Solimões, passando pela floresta amazônica. No entanto, gerenciar esse império radiofônico em tempos de cortes orçamentários e polarização política exige mais malabarismo do que a própria produção de conteúdo de qualidade.
Para tentar parecer jovem e conectada, a Nacional se desdobra em links de Spotify, Instagram, YouTube, X e uma lista confusa de números de WhatsApp para cada canto do país. É a burocracia estatal tentando se fantasiar de startup digital na esperança de capturar cliques de quem já esqueceu como se sintoniza uma frequência FM.
O dial de Brasília ainda resiste nos 96,1 MHz, mas a verdadeira batalha se dá na relevância. Celebrar 50 anos é bonito para colocar no relatório de gestão e justificar a verba pública, mas o desafio diário é convencer o cidadão comum de que aquela frequência ainda tem algo a dizer que não seja pura nostalgia.
No fim das contas, a Nacional FM chega cinquentona com a dignidade dos sobreviventes. Entre erros e acertos de uma comunicação pública que muitas vezes se confunde com estatal, a rádio ainda é o último refúgio de uma Brasília que se recusa a ser apenas poeira e funcionalismo público.