Uma operação de vigilância em larga escala, operada pela empresa israelense Discover-Tech, utilizou a rede global de anúncios online para rastrear usuários e facilitar a instalação de softwares maliciosos em dispositivos. A revelação, feita por meio de relatórios conjuntos do Citizen Lab e da empresa de segurança Confiant, expõe como o ecossistema de publicidade digital pode ser convertido em um canal para campanhas de espionagem cibernética.
A investigação aponta que a Discover-Tech, fundada em 2020, aproveitou parcerias em plataformas de tecnologia para alcançar mais de 120 mil sites e 75 mil aplicativos. O mecanismo permitia a identificação e o rastreamento de alvos apenas com o carregamento dos anúncios em uma página, sem a necessidade de interação direta do usuário.
Mecanismos de rastreamento e infecção de dispositivos
A estratégia da empresa envolvia a veiculação de anúncios de produtos comuns, como fones de ouvido e telefones, para disfarçar a atividade maliciosa. Segundo pesquisadores, a Discover-Tech processava cerca de 10 milhões de anúncios diariamente, utilizando técnicas de “cookie matching” para manter o monitoramento de indivíduos mesmo fora das plataformas onde os anúncios eram exibidos.
Em casos específicos, a infraestrutura foi utilizada para distribuir o spyware Candiru, uma ferramenta de vigilância incluída na lista negra do governo dos Estados Unidos. Embora o volume de anúncios associados ao spyware fosse uma fração minoritária das operações totais, o impacto foi significativo, atingindo dispositivos de jornalistas, ativistas e autoridades governamentais.
Alvos estratégicos e impacto em instituições globais
Os dados coletados revelam que os anúncios maliciosos foram direcionados a redes sensíveis, incluindo o Pentágono, a Otan, a Organização das Nações Unidas e o Tribunal Penal Internacional. O monitoramento também afetou a emissora Al Jazeera, onde 45 dispositivos com sistema Windows foram comprometidos entre 2024 e 2025.
A situação nos territórios palestinos foi classificada pelos pesquisadores como particularmente crítica. A alta densidade de anúncios da Discover-Tech em sites locais permitia uma visibilidade detalhada das atividades digitais na região, levantando preocupações sobre a segurança nacional e a privacidade de cidadãos em áreas de conflito.
Resposta do setor e exclusão de plataformas
Diante das evidências apresentadas pelo Citizen Lab, gigantes da tecnologia iniciaram medidas para bloquear a empresa. O Google confirmou a exclusão da Discover-Tech de suas plataformas devido a violações sistemáticas de políticas, enquanto a Beeswax, subsidiária da Comcast, também removeu a empresa de seu ecossistema de anúncios.
A IAB Europe suspendeu a companhia de sua lista de fornecedores globais após uma auditoria interna. Apesar das tentativas de contato por parte de veículos de imprensa, a Discover-Tech e seu diretor executivo, Dekel Boni, não se manifestaram sobre as acusações de espionagem e o uso indevido de dados de usuários.