O cinema brasileiro tem demonstrado força ao conquistar espaço em festivais internacionais e chamar a atenção do público para histórias que refletem diferentes realidades do país.
Entretanto, nem toda produção premiada precisa ser tratada como uma obra-prima, esse é o meu principal problema em relação a Feito Pipa, drama dirigido por Allan Deberton, que foi escolhido para representar o Brasil na disputa por uma indicação ao Oscar 2027 na categoria de Melhor Filme Internacional, apesar de abordar questões relevantes, o longa está extremamente longe de provocar em mim o entusiasmo demonstrado por parte da crítica.
A trama acompanha Gugu, um menino de quase 12 anos apaixonado por futebol e criado pela avó Dilma, uma mulher afetuosa que lhe permite viver a infância com liberdade, a situação muda quando ela começa a apresentar sinais de Alzheimer, colocando em risco a estabilidade familiar e aumentando o medo do garoto de precisar morar com o pai, Batista, com quem mantém uma relação difícil.

Interpretados por Yuri Gomes, Teca Pereira e Lázaro Ramos, respectivamente, os personagens conduzem uma história que aborda afeto, preconceito, amadurecimento e os desafios de uma família diante de mudanças dolorosas.
É inegável que Feito Pipa trabalha com temas importantes, a relação entre Gugu e sua avó oferece oportunidades para momentos emocionantes, enquanto o conflito com o pai coloca em discussão as expectativas sociais sobre masculinidade, o cenário do sertão cearense também contribui para dar identidade regional à produção, que procura fugir de representações simplificadas do interior brasileiro.

O problema, na minha avaliação, está na distância entre a importância dos assuntos abordados e o impacto cinematográfico que a obra efetivamente alcança, ter uma temática social relevante não significa, automaticamente, construir um grande filme, é necessário que o roteiro, a direção, a montagem e o desenvolvimento dos personagens trabalhem em conjunto para transformar essas questões em uma experiência realmente marcante, é justamente nesse ponto que Feito Pipa não consegue me convencer.
Embora o longa tenha momentos de sensibilidade, sua narrativa não apresenta a mesma força que o reconhecimento recebido parece sugerir, a tentativa de emocionar o espectador e de provocar reflexão não é suficiente, por si só, para elevar uma produção ao patamar de excelência, falta um impacto mais consistente que justifique tamanha celebração, não acumula méritos, mas, limitações que identifico em seu resultado final.

É aqui que entra uma questão que merece ser discutida: será que Feito Pipa está sendo superestimado por causa de sua campanha para o Oscar? Sim! Existe uma valorização excessiva da produção, como se a escolha para representar o Brasil na premiação internacional fosse uma espécie de confirmação antecipada de sua grandeza artística, não é! A indicação brasileira não transforma automaticamente a obra em um clássico ou em uma produção acima de qualquer questionamento.
É preciso separar a relevância dos temas, o reconhecimento conquistado em festivais e as estratégias de campanha para o Oscar da qualidade cinematográfica que cada espectador encontra na tela, a película recebeu prêmios importantes e foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para disputar uma vaga na premiação, mas esses acontecimentos não obrigam o público a concordar com o entusiasmo da crítica.

Minha preocupação é que a discussão sobre a possibilidade de uma indicação acabe ocupando mais espaço do que uma análise honesta dos méritos e das fragilidades do filme, torcer pelo cinema nacional é legítimo; tratar toda produção escolhida para representar o país como uma obra excepcional, porém, é de uma desonestidade intelectual ímpar.
Isso não significa desmerecer a produção brasileira ou ignorar a importância de levar histórias regionais a um público internacional. Pelo contrário, valorizar nosso cinema também significa reconhecer que ele pode ser discutido, questionado e avaliado sem que qualquer crítica seja confundida com falta de cultura, um filme não precisa ser perfeito para representar o Brasil, assim como representar o Brasil não o torna perfeito.

No fim das contas, Feito Pipa apresenta uma história com personagens que podem despertar empatia, reconheço essas qualidades, mas não considero que elas sejam suficientes para justificar o entusiasmo que se formou ao redor da produção.
Na minha avaliação, o filme fica aquém das expectativas criadas e não alcança o nível de excelência que parte de sua recepção parece defender.
NOTA 2/5
É uma avaliação que pode contrariar quem já considera o longa um dos grandes representantes do cinema brasileiro recente, mas crítica cinematográfica também significa ter coragem de discordar do consenso, o Brasil merece ser reconhecido internacionalmente, mas merece, igualmente, uma discussão cinematográfica que não confunda prestígio, premiações e expectativa de Oscar com qualidade incontestável.