A disseminação de padrões estéticos nas redes sociais atingiu o período gestacional, consolidando o fenômeno conhecido como belly-only pregnancy, ou “gravidez só na barriga”. Esse ideal, que exalta gestantes que mantêm o corpo magro com ganho de peso restrito à região abdominal, tem gerado debates intensos sobre a saúde física e psicológica de mães e bebês. A influenciadora Malu Borges, por exemplo, viu um de seus vídeos sobre o tema ultrapassar 6,4 milhões de visualizações, desencadeando uma onda de comentários que misturam admiração e críticas sobre a exposição de um corpo que foge às transformações físicas típicas da gestação.
O impacto psicológico e a internalização de padrões irreais
O fenômeno não é apenas uma questão de estética, mas um comportamento que reflete a pressão por um controle rigoroso sobre o corpo. Um estudo alemão publicado em 2022 na revista Eating and Weight Disorders analisou 351 postagens no Instagram e identificou que o ideal de “gravidez só na barriga” está frequentemente associado a dietas restritivas, monitoramento excessivo de peso e rotinas intensas de exercícios físicos, visando uma recuperação rápida pós-parto.
Para a psicóloga Angelika Weigel, coautora da pesquisa, o perigo reside na transformação de hábitos saudáveis em ferramentas de busca por um padrão inalcançável para a maioria das mulheres. Quando esses corpos são replicados massivamente na internet, eles podem ser internalizados como a forma “correta” de vivenciar a gestação, o que é especialmente arriscado para mulheres vulneráveis a transtornos alimentares, podendo incentivar restrições perigosas para o desenvolvimento do feto.
Responsabilidade digital e o papel das influenciadoras
A exposição de corpos gestantes que desafiam as mudanças biológicas naturais levanta questionamentos sobre a responsabilidade de quem produz conteúdo. Embora influenciadoras como Malu Borges declarem que não buscam estabelecer metas de peso ou usar o próprio corpo como referência, a recepção do público demonstra que o impacto vai além da intenção original da postagem.
A pesquisadora Angelika Weigel ressalta que, embora não se possa atribuir a responsabilidade total pelas reações individuais aos criadores de conteúdo, é fundamental que haja uma consciência sobre o que é comunicado implicitamente. A repetição de imagens que ignoram a diversidade biológica da gestação pode reforçar comparações irreais, gerando frustração e ansiedade em mulheres que vivenciam as transformações corporais esperadas durante os nove meses de espera.
A busca pelo equilíbrio na era das redes sociais
Especialistas reforçam que a gestação é um período de mudanças profundas e que a saúde deve ser priorizada em detrimento da estética. A psicóloga Bárbara Capecce, que vivencia a maternidade recente, aponta que os padrões estéticos são cíclicos e frequentemente ignoram a individualidade de cada organismo. O foco deve ser sempre o acompanhamento médico adequado, garantindo que o ganho de peso e a nutrição sejam condizentes com as necessidades do bebê e da mãe, e não com métricas ditadas por algoritmos ou tendências de moda.
Para mais informações sobre saúde gestacional e os riscos de dietas restritivas, consulte o portal de orientações da Saúde Brasil.