Bastou um brinquedinho voador de bacana errar o cálculo da pista para que o Aeroporto Santos Dumont, o cartão-postal da aviação carioca, implodisse em caos na última quinta-feira. O direito de ir e vir de milhares de pessoas foi sumariamente confiscado porque um jatinho particular resolveu fazer um piquenique no gramado lateral da pista.
O protagonista do vexame logístico atende pelo prefixo PS-VEE, um Embraer Phenom com capacidade para cinco passageiros que transportava apenas dois tripulantes. Ninguém se feriu, o que é ótimo para as estatísticas de segurança e péssimo para a paciência de quem acabou pagando o pato pelas próximas sete horas.
A barbeiragem aérea aconteceu às 16h10. Uma derrapagem boba, daquelas que em qualquer rodovia gerariam apenas um boletim de ocorrência e um guincho rápido, foi suficiente para paralisar o coração do Rio de Janeiro e expor a assustadora fragilidade da nossa infraestrutura aeroportuária.
Imediatamente, o Plano de Emergência foi acionado com pompa e circunstância. Bombeiros correram, técnicos do Cenipa sacaram suas pranchetas e o protocolo se impôs com aquela solenidade burocrática que adora disfarçar a total incompetência operacional para resolver problemas simples com agilidade.
Foram necessárias quase sete horas para retirar um avião de pequeno porte da grama. Sete horas de reuniões, análises de engenharia de botequim e uma lentidão exasperante, enquanto a noite caía e o aeroporto se transformava em um acampamento de refugiados da classe média.
O saldo da brincadeira do jatinho foi uma avalanche de transtornos: 15 voos foram deportados para o Galeão — aquele deserto de concreto na Ilha do Governador que os cariocas evitam a todo custo — e outros 71 voos simplesmente evaporaram da grade de programação.
Nos saguões do Santos Dumont, o cenário era de pura humilhação. Centenas de passageiros que pagaram passagens aéreas a preços extorsivos foram reduzidos a indigentes temporários, sentados no chão frio, alimentando-se de pão de queijo superfaturado sob a luz fria dos painéis vermelhos de cancelamento.
É a perfeita metáfora do Brasil contemporâneo: a conveniência de um único indivíduo endinheirado tem o poder de sequestrar a rotina, o tempo e o dinheiro de uma coletividade inteira, sem que haja qualquer responsabilização imediata ou compensação à altura.
Agora, o Cenipa abrirá uma investigação profunda para descobrir por que a física e a gravidade conspiraram contra o Phenom. Descobrirão que a pista estava molhada ou que o vento soprou torto, mas ignorarão o fato de que um aeroporto central não pode ter sua operação inteira aniquilada por um incidente de menor importância.
Às 23h, a pista foi liberada. O jatinho foi para o hangar, os pilotos foram para casa e os passageiros comuns ganharam de brinde o direito de negociar com o balcão das companhias aéreas, sob a promessa de um voucher de hotel barato e a certeza de que, na escala de prioridades do país, eles voam sempre na classe subalterna.