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MORAES AVANÇA CONTRA LIBERDADE DE IMPRENSA EM OPERAÇÃO CONTRA ADVERSÁRIO DE DINO

MORAES AVANÇA CONTRA LIBERDADE DE IMPRENSA EM OPERAÇÃO CONTRA ADVERSÁRIO DE DINO

12 de agosto de 2026

O Brasil acorda diariamente sob o peso de um espetáculo onde as regras do jogo mudam conforme o gosto dos donos da mesa. O que costumava ser chamado de Estado Democrático de Direito hoje ostenta contornos de uma arena privativa, onde garantias constitucionais são tratadas como mero detalhe burocrático e a liberdade de imprensa tornou-se uma concessão temporária, revogável ao menor sinal de incômodo aos poderosos de turno.

A mais recente rodada de operações e medidas cautelares assinadas pela caneta pesada do ministro Alexandre de Moraes escancarou uma dinâmica perigosa: a transformação da máquina judiciária em instrumento de retaliação e blindagem política. Sob o pretexto elástico de combater a desinformação, o Supremo Tribunal Federal avança sem pudor sobre redações, celulares e computadores de quem ousa questionar ou investigar as alianças e os protegidos do meio político, como o ministro Flávio Dino.

Não se trata mais de uma discussão abstrata sobre os limites do debate público, mas de uma ofensiva direta contra a atividade jornalística. Quando a Polícia Federal bate à porta de comunicadores e veículos de imprensa para apreender seus instrumentos de trabalho a mando de um tribunal que se tornou, ao mesmo tempo, vítima, acusador e juiz, o sinal de alerta deixa de soar e passa a ensurdecer.

A narrativa oficial, construída com o jargão empolado das decisões judiciais, tenta vender a imagem de um esforço heroico para salvar as instituições do colapso. No entanto, para qualquer leitor atento que observe a cena sem o filtro da paixão partidária, o que se vê é a consolidação de um ambiente de intimidação, onde o segredo de fonte e a vedação à censura prévia são triturados em nome da “defesa da ordem”.


Flávio Dino e Alexandre de Moraes no STF (Foto: Rosinei Coutinho/STF)

É preciso ter a coragem de nomear as coisas pelo que elas são. A seletividade que guia essas ações é constrangedora: a celeridade e o rigor implacável do STF parecem atingir com precisão cirúrgica justamente os críticos, adversários e investigadores que colocam sob holofotes os interesses dos aliados de Brasília. Enquanto isso, esquemas reais de corrupção e desmandos escancarados repousam em gavetas bem trancadas.

A imprensa, que historicamente funcionou como o cão de guarda da sociedade contra os abusos do Estado, vê-se agora acorrentada no quintal da Corte. O chamado chilling effect o efeito inibidor que faz profissionais hesitarem antes de publicar uma denúncia por medo de bloqueios financeiros ou ordens de prisão deixou de ser uma ameaça teórica para se tornar a regra silenciosa dos bastidores.

A ironia da situação reside no fato de que os mesmos discursos que prometem proteger a democracia estão, na prática, erodindo os pilares que a sustentam. Não existe democracia saudável sem uma imprensa livre para criticar, fiscalizar e incomodar quem quer que ocupe as cadeiras mais altas da República, seja no Palácio do Planalto, seja no Edifício-Sede do STF.

Quando um ministro utiliza o aparato judicial para devassar a rotina de veículos que incomodam um colega de Esplanada, a mensagem enviada à sociedade é cristalina: a lei não é um escudo para o cidadão, mas uma espada na mão dos intocáveis. Cria-se uma casta superior, imune ao escrutínio público, cuja honra é defendida por meio da força policial e do cala-a-boca institucional.

A população assiste a essa escalada entre o choque e a anestesia. Acostumado com a rotina de abusos, o brasileiro médio muitas vezes custa a perceber que o estrangulamento da imprensa não fere apenas o jornalista que teve seu celular confiscado, mas retira do próprio povo o direito básico de saber o que os donos do poder fazem quando as luzes se apagam.

E onde estão as entidades de classe e os defensores históricos das liberdades civis que outrora marchavam contra qualquer sombra de autoritarismo? Muitos preferem o silêncio covarde ou a ginástica mental para justificar o injustificável, esquecendo-se de que a censura, quando aplaudida hoje porque atinge o adversário, amanhã baterá à porta de quem a defendeu.

O uso da expressão “desinformação” transformou-se no curinga perfeito para carimbar qualquer reportagem indesejada ou crítica severa. Ao avocar para si o papel de árbitro supremo da verdade, o Judiciário assume uma postura messiânica e perigosa, decidindo o que o cidadão pode ler, ouvir e pensar, como se a população fosse incapaz de formar o próprio juízo de valor.

A história é implacável e costuma cobrar um preço alto das nações que aceitam trocar a liberdade pela promessa de uma segurança ilusória promovida por salvadores da pátria togados. O ativismo judicial desmedido, longe de pacificar o país, aprofunda as fraturas sociais e desgasta de forma irreversível a credibilidade das próprias instituições que deveria preservar.

Enquanto a caneta do ministro desenha novos mandados e bloqueia novos perfis, a rotina de arbitrariedades vai se naturalizando. Transforma-se o exceção em regra, o absurdo em cotidiano, e a crítica legítima em crime de lesa-majestade, em um teatro onde o público é obrigado a aplaudir a própria perda de direitos.

O avanço contra a liberdade de imprensa nas operações que envolvem os adversários de Dino não é um episódio isolado, mas o sintoma de um sistema que perdeu o senso de proporção e os limites do próprio poder. É o triunfo da arrogância estatal sobre os direitos fundamentais inscritos na Constituição que todos juraram defender.

Até quando o país aceitará viver sob a sombra da intimação e da censura disfarçada de justiça? A resposta a essa pergunta definirá se o Brasil continuará a ser uma República de cidadãos livres ou se consolidará de vez como um cartório gerido pelo arbítrio de poucas togas.

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