A democracia brasileira é uma festa tão pacífica e harmoniosa que, para garantir que o cidadão consiga digitar meia dúzia de números em uma urna sem levar um tiro, precisamos convocar as Forças Armadas. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou o envio de tropas federais para cinco estados, tratando o colapso crônico da segurança pública como quem carimba uma mera guia de estacionamento.
A lista de contemplados com a babá fardada inclui Acre, Ceará, Piauí, Rio de Janeiro e Tocantins. O tribunal ainda não detalhou quais ou quantos municípios receberão o reforço, talvez para não estragar a surpresa ou para simplesmente não passar o recibo definitivo de quais prefeituras já capitularam totalmente diante do crime organizado.
A justificativa técnica para a medida é aquela piada burocrática de sempre: os Tribunais Regionais Eleitorais pedem socorro porque as polícias estaduais não têm capacidade de garantir a ordem. É a certidão de óbito da soberania local assinada em três vias, com reconhecimento de firma, entregue diretamente ao Ministério da Defesa.
Há uma ironia fina no fato de que os mesmos militares que passaram os últimos anos flertando com a desconfiança sobre as urnas agora sejam escalados para carregar e proteger o próprio processo físico. A logística da salvação democrática agora depende de quem, teoricamente, deveria apenas pintar meio-fio e simular invasões em fronteiras pacíficas.
Enquanto o Exército arruma as mochilas, o presidente do TSE faz pronunciamentos solenes conclamando o eleitor a comparecer às urnas. É quase comovente o apelo, ignorando cinicamente que o convite para votar vem acompanhado de fuzis na porta das seções eleitorais para garantir que o ‘exercício do dever cívico’ não termine em necrotério.
Para completar o circo da modernidade, o TSE se orgulha de parcerias com o Google para combater deepfakes de candidatos. Estamos genuinamente preocupados com rostos digitais alterados por inteligência artificial enquanto, no mundo real, o eleitor do interior precisa desviar de milicianos e traficantes armados para conseguir alcançar a cabine.
No primeiro turno, 158 milhões de eleitores estarão aptos a votar. Para uma parcela considerável desse rebanho, a escolha do próximo deputado ou presidente será feita sob o olhar atento de um recruta que mal saiu da adolescência, mas carrega o peso de um Estado falido nas costas.
A lista de cargos em disputa é longa: deputados federais, estaduais, senadores, governadores e presidente. Uma fartura de promessas vazias sobre desenvolvimento e educação de candidatos que, em sua maioria, não conseguem sequer garantir que o eleitor chegue vivo para elegê-los sem escolta de infantaria.
E se o primeiro turno não resolver o espetáculo, há o segundo round marcado para o final do mês. Mais combustível de tanque gasto, mais diárias de soldados pagas pelo contribuinte e mais um domingo de tensão nacional, provando que a nossa democracia é um produto caro que exige manutenção pesada para não quebrar no meio do caminho.
No fim das contas, a chamada ‘festa da democracia’ assemelha-se àquelas baladas decadentes de periferia que só funcionam com viaturas da polícia estacionadas na porta e revista íntima na entrada. Se você precisa de tanques na rua para garantir um voto, o que você tem não é um processo eleitoral seguro, é uma trégua armada temporária.