No tabuleiro do comércio internacional, a diplomacia econômica brasileira atuou em duas frentes decisivas nesta semana. Enquanto acompanhava com atenção as pressões protecionistas vindas de Washington, Brasília deu um passo firme rumo ao Oriente para blindar o setor produtivo nacional contra choques tarifários e dependências exclusivas.
Na quinta-feira (27), a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e a Confederação da Indústria Indiana formalizaram um memorando de entendimento. Embora o documento não tenha caráter vinculante, a estrutura de cooperação abre portas para pequenas e médias empresas, facilita a troca de inteligência de mercado e estimula a atração cruzada de investimentos.
A iniciativa reflete uma diretriz expressa do Palácio do Planalto: acelerar a diversificação de parceiros comerciais. Nos últimos anos, as trocas entre Brasil e Índia cresceram 82%, revelando um campo promissor para expandir o atual acordo de preferências tarifárias Mercosul-Índia, que hoje abrange cerca de 450 linhas de produtos.
Setores como bioenergia, biocombustíveis, fertilizantes, dispositivos médicos e a indústria farmacêutica estão no topo das prioridades bilaterais. Além disso, o Brasil busca parcerias na exploração de minerais críticos, impondo como pré-requisito a transferência tecnológica e o desenvolvimento da indústria local, sem alinhamentos automáticos ou exclusões geopolíticas.
No entanto, a aproximação com o mercado indiano ocorre em meio à sombra trazida pelo ‘tarifaço’ anunciado pela gestão de Donald Trump nos Estados Unidos. A ameaça de sobretaxas a produtos brasileiros força o governo a manter uma estratégia dupla: buscar novos mercados enquanto tenta conter estragos no comércio com a maior economia do planeta.
O reencontro formal entre as diplomacias está agendado para a próxima segunda-feira (31), em uma reunião virtual entre o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa, o chanceler Mauro Vieira e o representante de Comércio dos EUA (USTR), Jamieson Greer. O diálogo foi destravado após um telefonema direto entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Trump, sem que o Brasil precisasse oferecer concessões prévias.
A pauta com Washington deve incluir a negociação de listas de exceções tarifárias e a discussão sobre a aplicação da Lei de Reciprocidade. Do lado brasileiro, a linha adotada é de otimismo pragmático, acompanhada da manutenção do programa Brasil Soberano para socorrer empresas nacionais eventualmente prejudicadas pelas medidas norte-americanas.
Ao equilibrar a expansão de rotas na Ásia com a diplomacia direta nos Estados Unidos, o Brasil tenta desenhar uma política externa pragmática. A prioridade não é tomar lados no cenário global, mas sim garantir que a indústria e o agronegócio nacional mantenham margem de manobra frente ao avanço do protecionismo global.