Comemorar a destruição de ‘apenas’ 2.702 km² de floresta amazônica é o equivalente a celebrar que o assaltante levou sua carteira, mas deixou o celular para trás. No maravilhoso mundo das estatísticas oficiais e das assessorias de imprensa governamentais, o recuo do desmatamento é vendido como um triunfo ecológico sem precedentes, quase um milagre de gestão. Mas a verdade nua e crua, revelada pelos dados do Imazon de agosto de 2025 a julho de 2026, mostra que o pulmão do planeta continua sendo serrado, só que em um ritmo ligeiramente mais lento.
O grande destaque do relatório é que 60% das terras indígenas registraram desmatamento zero. Traduzindo do jargão ambientalista para a realidade nua e crua: as populações originárias estão fazendo de graça o trabalho que o Estado brasileiro, com toda a sua máquina de impostos e ministérios, é incapaz de realizar. Enquanto o agronegócio e a grilagem cercam as fronteiras, os verdadeiros guardiões da floresta resistem sem receber o devido crédito, funcionando como barreiras humanas contra a motosserra.
Dos parcos 1,7% de desmatamento que conseguiram penetrar nas terras indígenas, a maioria das ocorrências ficou abaixo de 1 km². É um tapa na cara da tese do marco temporal e de todos os discursos de desenvolvimento que tentam pintar os territórios protegidos como ‘terras improdutivas’. Produtivo, de fato, é o crime organizado que, mesmo sob vigilância, ainda consegue rasgar o mapa e arrancar árvores centenárias em territórios supostamente guardados pelo governo federal.
Enquanto isso, em Brasília, o presidente Lula já prepara o terno para exibir esses números a Donald Trump. É a velha diplomacia do ‘olha como eu sou bonzinho’, usando a resistência do povo indígena como moeda de troca geopolítica e troféu pessoal de relações públicas. O governo adora se fantasiar de verde no exterior, omitindo convenientemente que a preservação da Amazônia se deve muito mais ao isolamento geográfico e ao sangue dos povos da floresta do que às canetadas palacianas.
Mas nem tudo são flores – ou melhor, árvores de pé. A TI Cachoeira Seca, no Pará, lidera o ranking do vandalismo com 4,44 km² devastados, seguida de perto pela TI Andirá-Marau e pela TI Porquinhos dos Canela-Apãnjekra. Esses nomes distantes para a Faria Lima representam cicatrizes abertas na terra, buracos na floresta que expõem a fragilidade da fiscalização onde o Estado finge que vigia e os criminosos têm certeza da impunidade.
Nas Unidades de Conservação, a hipocrisia ganha contornos ainda mais definidos, respondendo por 9% da devastação total do bioma. A APA Triunfo do Xingu, no Pará, com seus vergonhosos 90,87 km² de vegetação nativa perdidos, é o exemplo clássico de área protegida apenas no papel. No Acre, a histórica Resex Chico Mendes também sangrou 17,24 km², mostrando que nem mesmo o legado dos mártires da ecologia está a salvo da voracidade do pasto.
No campeonato do desmatamento estadual, o pódio da vergonha continua intocado: Pará, Mato Grosso e Amazonas garantiram suas medalhas de ouro, prata e bronze da motosserra. Juntos, os três estados ceifaram mais de 1.800 km² de floresta. A comemoração oficial é que eles destruíram menos do que no ano anterior. É a lógica perversa do ‘roubou menos’, um consolo de bobo para uma população anestesiada por relatórios de PowerPoint.
A explicação dos especialistas para esse pódio repetitivo beira o óbvio ululante: esses estados sempre lideram porque são os maiores. Uma constatação brilhante que apenas corrobora a inércia estrutural. Em vez de políticas públicas focalizadas e cirúrgicas para estancar o sangue nessas regiões específicas, o país assiste a um rodízio macabro de colocações entre os estados destruidores ao longo dos anos.
O Imazon tenta adoçar a pílula amarga lembrando que este é o menor índice de desmatamento dos últimos 11 anos, com uma redução de 23% em relação ao período anterior. É um alento, sem dúvida, mas comemorar o menor índice em uma década é como celebrar que o paciente na UTI teve apenas uma parada cardíaca hoje, em vez das duas de ontem. A floresta ainda está respirando por aparelhos, sob a constante ameaça de desligamento da tomada.
Por fim, a queda de 93% na degradação por fogo ou extração de madeira parece um milagre estatístico que desafia a física climática da região. Resta saber se essa calmaria é fruto de uma conscientização repentina dos criminosos ambientais ou apenas um golpe de sorte meteorológica. Seja como for, a Amazônia segue seu destino tragicômico: sobrevivendo não por causa das ações do homem civilizado, mas apesar de todas elas.