A geração que transformou a marmita de batata-doce em religião e o supino em templo vive hoje sob uma das contradições mais patéticas da história recente: o atleta de puxada de ferro que, na calçada da academia, puxa a fumaça sabor menta de um vape.
Parece piada de mau gosto, mas a situação é tão crônica que o Instituto Nacional de Câncer (Inca) precisou gastar tempo e recursos públicos para lançar uma campanha com o óbvio ululante: atividade física e fumo não combinam. Sim, em pleno século XXI, o Estado precisa desenhar que destruir os pulmões anula o esforço de fortalecê-los.
Essa necessidade surge da nossa fantástica capacidade de autoengano, onde o indivíduo acredita piamente em uma contabilidade biológica fantasiosa, na qual trinta minutos de corrida na esteira pagam o pedágio de dez cigarros acesos no trânsito ou de um pod consumido até o final em um único fim de semana.
A psicóloga Vera Borges, especialista do Inca, foi cirúrgica ao alertar para essa ilusão de imunidade que ronda os adeptos da vida saudável fake, destacando que nenhum agachamento bem executado blinda o organismo dos estragos provocados pelas centenas de substâncias tóxicas do tabaco.
O funcionamento da máquina humana é lógico, embora o usuário insista em sabotá-lo, pois enquanto o exercício físico tenta abrir os vasos, otimizar o oxigênio e regenerar os tecidos, a nicotina chega como um sabotador silencioso, contraindo artérias e sufocando as células.
O cenário piora drasticamente com a gourmetização do vício, capitaneada por dispositivos eletrônicos e sachês de nicotina promovidos por influenciadores digitais e até “atletas” vendidos nas redes sociais, que vendem veneno com roupagem de acessório moderno de bem-estar.
A fatura biológica dessa incoerência cobra juros altíssimos e imediatos na forma de fadiga precoce, lesões constantes e uma capacidade pulmonar reduzida a níveis de um sedentário de oitenta anos, tudo envelopado sob uma casca esteticamente agradável.
Basta observar a saída de qualquer box de crossfit ou academia de rede para flagrar a horda de jovens ofegantes, vestindo roupas tecnológicas e tênis importados, expelindo nuvens de vapor químico aromatizado como locomotivas desgovernadas.
A indústria do tabaco, sempre oportunista, percebeu que não precisa mais vender o caubói másculo montado a cavalo para viciar as massas, bastando disfarçar a velha e destrutiva nicotina em um design moderno que cabe no bolso da bermuda de compressão.
No fim das contas, a tentativa de conciliar o treino pesado com a tragada gourmetizada é apenas um esforço inútil e caro de fingir controle sobre o próprio corpo, resultando no triste espetáculo de morrer mais jovem, porém com os músculos definidos.