Há algo de profundamente irônico na imagem de crianças autistas buscando afeto e regulação sensorial no pátio do Batalhão de Operações Especiais (Bope) de Macapá. O mesmo Estado que empunha fuzis e ostenta a caveira como símbolo de ordem decide que o melhor refúgio para a neurodivergência infantil é, vejam só, a sede da polícia de elite.
O cenário dessa cinoterapia improvisada é o Canil do Bope, situado no bairro do Beirol. Em meio ao concreto cinzento e ao pragmatismo militar, cães adestrados desempenham o papel que o sistema de saúde pública finge não ver: o de terapeutas para crianças que carecem de assistência especializada diária.
Segundo o coordenador de reabilitação do Creap, a atividade promove saúde física e mental por meio da troca de afeto. É uma declaração bonita e redonda, perfeita para mascarar o óbvio: a sensibilidade das crianças virou a ferramenta ideal para humanizar uma instituição historicamente associada à força bruta.

A fonoaudióloga Valquíria Câmara, mãe da pequena Daniela, celebrou a vivência como um momento em que as crianças dão o melhor de si. De fato, elas dão. O problema reside no fato de que o Estado só parece dar o seu melhor quando consegue acoplar uma pauta social legítima a um plano de relações públicas fardado.
O histórico do projeto “Melhor Amigo” expõe a conhecida lerdeza da máquina pública brasileira. Iniciado em 2019, o programa foi sumariamente interrompido pela pandemia e levou três inacreditáveis anos após o fim das restrições sanitárias para ser reativado em 2023.
O capitão do canil afirma que a intenção é manter o trabalho constante, mas convenientemente joga a responsabilidade da frequência para os “profissionais de saúde”. Na dança das cadeiras burocrática, a saúde empurra para a segurança, a segurança devolve para a saúde, e as famílias aguardam na eterna fila do improviso.
A dependência de um batalhão militar para realizar terapia de reabilitação é o atestado de óbito do planejamento urbano voltado à saúde mental. Na falta de clínicas equipadas, parques sensoriais e profissionais suficientes na rede, resta aos pais cruzar a guarita policial para que seus filhos possam, simplesmente, acariciar um cachorro.
A cobertura oficial registra o evento com o habitual tom festivo e condescendente das assessorias de imprensa. Mas por trás das fotos fofas de crianças sorrindo ao lado de pastores-alemães, esconde-se a dura realidade de um estado que terceiriza o alívio terapêutico para cães que, no dia seguinte, voltam a farejar drogas e armas.
Esta cooperação entre o Creap e o Bope é dinâmica na superfície, mas estática no impacto real a longo prazo. Sem uma agenda fixa e sem investimento estrutural nas redes de apoio ao autismo, o evento de sexta-feira se reduz a um espasmo de caridade institucionalizada para preencher cota de relações públicas.
No fim das contas, a cinoterapia militarizada em Macapá funciona como um anestésico social perfeito. As crianças ganham um dia de carinho, a polícia limpa sua imagem com a comunidade, e os gestores públicos garantem mais uma semana de silêncio de uma população exausta de implorar pelo básico.